HOMENAGEM A VITÓRIA PINHEIRO

Vitória Pinheiro

Direcção Nacional do SNTCT associa-se a homenagem da BASE-FUT, JOC e LOC/MTC a uma das suas figuras incontornáveis do nosso Sindicato:

VITÓRIA PINHEIRO
(Maria Vitória Silveira Pinheiro)
28/05/1923 – 22/07/2016

A “nossa” Vitória partiu em 22 de Junho deste ano. Devido a uma série de desencontros, só tomámos casualmente conhecimento da sua partida através da sua amiga de sempre e irmã de coração, a Maria de Jesus Moita, também associada aposentada do SNTCT.
A Vitória partiu já bastante doente e a Maria de Jesus, já afectada pela doença e pelos seus 85 anos de idade, não se lembrou de nos avisar do seu falecimento e, a família da Vitória, julgou que o tínhamos sido.
Não nos fizemos representar no seu funeral por essa razão mas, no Plenário Nacional do SNTCT de 2004, quando comemorávamos o 30º Aniversário do SNTCT, homenageámos devidamente a “nossa” Vitória, ainda ela estava em plena posse de todas as suas faculdades e numa das suas últimas intervenções públicas. A 1ª das fotos anexas a este texto ilustra o ar feliz de uma mulher que declarou perante a assembleia, são palavras suas, “(a sua) felicidade por “estar em casa”…”.
QUEM FOI VITÓRIA PINHEIRO?
QUE SIGNIFICOU PARA OS TRABALHADORES, FUNDAMENTALMENTE OS DOS CTT?
QUAL A SUA LIGAÇÃO AO SNTCT?
8 de Abril de 1970
Afrontando a ditadura fascista do Estado Novo, uma mulher convoca uma “reunião para formar um Sindicato dos CTT”.
Vitória Pinheiro, Telefonista na recém-formada Empresa Pública CTT – Correios e Telecomunicações de Portugal, E. P., activista desde a sua juventude do movimento católico dos trabalhadores (JOC – Juventude Operária Católica, iniciada em Portugal em 1932 e LOC – Liga Operária Católica, Fundada em 1936), despoletava assim o processo que viria a culminar em 1974, só após a Revolução do 25 de Abril, com a criação do nosso SNTCT em 5 de Maio daquele ano.
Luís Eurico Calado Nogueira Pinto, relata desta forma a reunião no seu livro “Elementos para a história dum Sindicato – Como nasceu o SNTCT” editado em 1996 pelo SNTCT, do qual citamos de seguida alguns excertos;
“…
Nesse 8 de Abril de 1970, pela tarde, recebi um telefonema da minha mulher, também empregada da Casa, em serviço na Secretaria da Circunscrição Postal da Estremadura, dizendo-me que ia realizar-se uma reunião promovida por uma telefonista, uma tal Vitória Pinheiro, para se formar um Sindicato dos CTT…

A Vitória Pinheiro justificou o convite para a reunião pela necessidade de reflectir em conjunto na possibilidade de sindicalização do pessoal em face da situação criada pela transição dos CTT de serviço integrado na Administração Central do Estado para Empresa Pública. Situação caracterizada especialmente pelo facto de termos passado a pagar impostos – Profissional, para o Fundo de Desemprego e Complementar – específicos do pessoal empregado “por conta de outrem” – e dos quais os funcionários dos Estado, este legal e claramente impedidos de se sindicalizarem, estavam isentos. …”.
Nessa reunião foi eleita uma Comissão encarregue de levar a efeito algumas acções nomeadamente junto do então Correio Mor (equivalente à função de Presidente do CTT).
A Composição da Comissão era a seguinte; Américo de Jesus Rodrigues, Luis Eurico Calado Nogueira Pinto, Maria Fernanda de Jesus Constantino Novais, Maria Vitória Silveira Pinheiro, Óscar Fernando Gonçalves Vieira e Rogério dos Santos Serra.
Para abreviar só queremos referir que a Comissão colocou em práctica todas as orientações dos presentes naquela reunião e, por afrontar o poder fascista então estabelecido, acabou por extinguir-se em 1971 depois de os seus elementos terem sofrido todo o tipo de pressões e perseguições.
A sentença final veio em Novembro de 1970, no seguimento de uma afirmação de Américo Rodrigues, um dos membros da Comissão, à proposta do Correio Mor de os cofres da Empresa suportarem os custos de funcionamento da mesma.
Em resposta a tal tentativa de suborno Américo Rodrigues traçou naquele dia um dos princípios que ainda hoje regem o SNTCT; das Empresas não aceitamos dinheiro ou outros quaisquer benefícios quer para a estrutura do Sindicato quer para os seus dirigentes.
Citando novamente Nogueira Pinto foram as seguintes palavra de Américo Rodrigues que ditaram o fim da Primeira Comissão Pró-Sindicato dos CTT;
“- Não senhor Correio Mor. A Comissão agradece mas não pode nem deve aceitar. Estamos aqui com um mandato dos nossos colegas. Se eles o fizeram não devemos aceitar nada que deles não venha. É a eles, portanto, que compete contribuir para tais despesas. Se aceitássemos algo que deles não viesse não seríamos dignos da sua confiança e é só à base desta que nós poderemos realizar este trabalho.”
Dos destinos dos componentes e da extinção da Primeira Comissão Pró-Sindicato dos CTT e do que se lhe seguiu até à fundação do SNTCT em 5 de Maio de 1974 publicaremos nos próximos tempos, na página web do SNTCT, a versão integral do livro de Nogueira Pinto.
Sobre Vitória Pinheiro acrescentarmos só que, numa tentativa de a segregarem, foi coercivamente transferida “por Conveniência de Serviço” da Central Telefónica de Lisboa dos CTT (o edifício com torre de relógio da Praça de D. Luis I ao Cais do Sodré, hoje transformado em condomínio de luxo), onde era Telefonista desde 1944, para as Obras Sociais (de que nada entendia), para elaboração do Manual de Utilização das Mesmas.
Vitória Pinheiro chegou a ver posta em causa o seu pedido de Licença Limitada por 4 anos, licença pedida em Maio do mesmo ano, para se ausentar para a Bélgica onde iria assumir o cargo de Secretária Geral Feminina do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos com a alegação de que “… é tão valiosa a sua colaboração que as Obras Sociais não podem dispensá-la, por pouco tempo que seja…”.
Vitória Pinheiro só regressou aos CTT no início dos anos oitenta (ver a 2ª foto, a preto e branco, anexa a este texto) quando finalmente se filiou no Sindicato a cujas mais remotas origens esteve ligada. Aposentou-se em 1988 e era a Associada Nº 21887 do SNTCT de que foi Dirigente Regional da Secção Equiparada a Regional da ECT/ECF onde estava inserida a nível sindical a sua “Telefónica”. A “nossa” Vitória manteve-se até ao fim ligada ao seu Sindicato através da Comissão Nacional de Aposentados e Reformados do SNTCT em que tinha o Nº 975 e cujas quotas eram anualmente e religiosamente pagas pela sua irmão de coração Maria de Jesus Moita.
Por isso e por todas as razões que aqui agora não cabem, a convite de Jorge Paixão, Coordenador da LOC, o SNTCT estará presente amanhã na Sede da BASE-FUT, na Rua Maria, nº 15, em Lisboa fazendo-se representar por José Oliveira e Carlos Galvão do Executivo da sua Direcção Nacional e por Amélia Monteiro da Comissão Nacional de Aposentados e Reformados do SNTCT. Ainda por confirmar está a presença de dois activistas do SNTCT desde a sua fundação, Carlos Madruga e Odete Silva.
Vitória Pinheiro, camarada e amiga, nós te saudamos!
Lisboa 21 de Outubro de 2016